Eles querem transformar Marathon numa experiência de sobrevivência mais ampla

A Bungie resolveu fazer uma coisa bastante rara na indústria de videogames.

Voltar atrás.

Não com aquela clássica técnica corporativa de trocar três palavras no comunicado, chamar tudo de “evolução estratégica” e fingir que ninguém percebeu.

Voltar atrás mesmo.

Depois de anunciar em maio que Destiny 2 receberia sua última grande atualização de conteúdo de serviço contínuo em junho, o estúdio mudou de direção e afirmou que ainda não terminou com Destiny.

Ao mesmo tempo, admitiu que Marathon não encontrou o público esperado e precisa crescer para além da caixa em que foi colocado.

Ou seja: o jogo antigo que estava indo para aposentadoria voltou para o escritório e o jogo novo recebeu uma reunião de desempenho.

Segunda-feira normal na Bungie.

Veja o vídeo.

Destiny 2 morreu em junho e já está melhor

Em 21 de maio, a Bungie publicou uma mensagem bastante definitiva.

Destiny 2 receberia sua última atualização de conteúdo de serviço contínuo em 9 de junho de 2026. O jogo continuaria disponível, mas o desenvolvimento ativo estava chegando ao fim enquanto o estúdio passaria a concentrar esforços em novos projetos.

Parecia ponto final.

Não reticências.

Ponto final.

Quatro meses depois, temos um ponto de interrogação gigantesco.

O chefe do estúdio, Poria Torkan, reconheceu que a Bungie perseguiu novas visões sem dar atenção suficiente àquilo que os jogadores realmente valorizavam. E Josh Deane, chefe de produto, confirmou que a empresa pretende restaurar campanhas, destinos e raids que foram removidos de Destiny 2.

É difícil não apreciar a ironia.

Durante anos, uma das decisões mais criticadas de Destiny 2 foi justamente o famoso Destiny Content Vault.

Conteúdo comprado pelos jogadores simplesmente desaparecia.

Campanhas completas.

Destinos.

Atividades.

Raids.

A Bungie dizia que precisava fazer isso para manter o tamanho e a manutenção do jogo sob controle.

Agora decidiu:

“Pensando bem… talvez a gente devesse devolver aquilo.”

Excelente.

Levou alguns anos, mas finalmente alguém encontrou a chave do depósito.

O conteúdo antigo não vai simplesmente voltar como estava

A parte interessante é que o estúdio não pretende apenas apertar Ctrl+C e Ctrl+V.

Segundo a Bungie, o conteúdo restaurado precisará receber ajustes em iluminação, encontros, inimigos e outros sistemas para funcionar dentro dos padrões atuais de Destiny 2. Mais detalhes serão divulgados nos próximos meses.

Isso é importante.

Destiny 2 de 2017 não é exatamente o mesmo jogo de 2026.

Sistemas mudaram.

Classes mudaram.

Armas mudaram.

O nível de poder dos Guardiões mudou tanto que alguns chefes antigos provavelmente olhariam para um jogador moderno e pediriam licença médica.

Então restaurar conteúdo antigo exige trabalho.

E, sinceramente, prefiro assim.

Se vão trazer de volta campanhas e raids, que façam direito.

Ninguém quer abrir uma missão antiga e descobrir que ela ficou tão quebrada pelo power creep que o chefe morre porque alguém espirrou usando a subclasse Solar.

Bungie quer recuperar confiança, não pedir confiança

Essa parte do discurso foi provavelmente a mais sensata.

Torkan afirmou que a Bungie não está pedindo que os jogadores confiem novamente nela.

Quer conquistar essa confiança.

Boa.

Porque confiança em jogo como serviço é uma coisa complicada.

Você pode passar dez anos construindo uma comunidade e meia dúzia de decisões ruins depois descobrir que todo mundo desenvolveu memória de elefante.

A Bungie passou por bastante turbulência recentemente.

Demissões.

Mudanças de liderança.

Projetos cancelados.

Problemas de lançamento e recepção.

A aposentadoria anunciada de Destiny 2.

E o lançamento complicado de Marathon.

Dizer “confiem na gente” neste momento seria praticamente pedir para a internet pegar uma cadeira e sentar.

Reconhecer que precisa provar na prática já é um começo melhor.

E aí temos Marathon

Se Destiny 2 representa uma marcha a ré, Marathon representa uma mudança de faixa inteira.

A Bungie reconheceu que o jogo não conseguiu atrair tantos jogadores quanto esperava.

Isso não significa que esteja morto.

Longe disso.

Mas a equipe agora fala em transformar Marathon numa experiência de sobrevivência mais profunda, indo além das limitações de gênero que ela própria havia imposto.

Traduzindo:

Talvez transformar uma franquia antiga em extraction shooter puro não tenha sido a ideia mais brilhante da história.

Quem poderia imaginar.

Marathon vai deixar de ser só extraction shooter

O plano agora inclui experiências separadas de:

  • PvE
  • PvP
  • PvPvE

Isso muda bastante a proposta.

Desde maio, a Bungie já vinha dizendo que queria criar experiências para diferentes tipos de jogador: desde quem procura partidas extremamente competitivas até quem prefere algo mais tranquilo. Também havia planos para PvP puro, PvE e variações com menos pressão competitiva.

Agora esse discurso ficou ainda mais explícito.

O estúdio quer expandir Marathon para fora daquela definição rígida de “entra, pega loot, evita morrer, extrai, perde equipamento, chora, entra novamente”.

E eu acho uma boa.

Porque extraction shooter é ótimo para quem gosta de extraction shooter.

Uma revelação chocante, eu sei.

O problema é quando uma empresa olha para uma IP histórica, reconstrói tudo ao redor de um gênero bastante específico e depois percebe que talvez tenha reduzido demais seu público potencial.

O PvE permanente pode ser a parte mais importante

Em dezembro chega a atualização Symbiosis, programada para 8 de dezembro.

Ela terá uma experiência PvE permanente, uma nova Runner Shell, uma versão renovada da região Perimeter, espaço social com campo de tiro, um modo experimental de Team Deathmatch e melhorias para novos jogadores.

Essa talvez seja a mudança mais importante de todas.

PvE permanente.

Não apenas um evento limitado.

Não apenas um teste.

Algo que pode permitir ao jogador entrar em Marathon porque gosta daquele universo, do combate da Bungie e da atmosfera sem necessariamente precisar enfrentar alguém chamado xxMurderGod69xx que conhece cada ângulo do mapa desde o beta.

Excelente.

Eu envelheci.

Às vezes quero atirar em alienígena sem precisar competir com um adolescente tomando três energéticos por hora.

Me deixem em paz.

E antes disso vem um reset geral

Em 6 de outubro, Marathon receberá uma atualização menor que vai resetar progressão e economia, atualizar recompensas e fazer ajustes no jogo. A Bungie também abandonará aquela estrutura rígida de temporadas para dar mais flexibilidade ao desenvolvimento.

Resetar economia costuma ser um daqueles momentos deliciosos em jogos online.

Você passou 200 horas acumulando coisa?

Ótimo.

Agora todo mundo começa de novo.

Obrigado pela participação.

Mas nesse caso existe uma lógica clara: a Bungie está tentando reposicionar o jogo enquanto ele ainda possui espaço para mudanças estruturais.

Melhor fazer isso agora do que daqui a três anos.

Marathon já vinha procurando um caminho

Vale lembrar que essas mudanças não apareceram completamente do nada.

Logo depois do lançamento, a Bungie já dizia que queria tornar o jogo menos grindy, mais recompensador, melhorar matchmaking, interface, experiência de novos jogadores e criar alternativas para solos e duplas.

Também lançou experiências PvE experimentais, como Vault Invasion, indicando que já estava testando maneiras de abrir a estrutura para públicos diferentes.

Agora parece ter decidido parar de testar a água com o pé.

Vai entrar de vez.

Talvez Destiny e Marathon não precisem competir

O erro maior da Bungie talvez tenha sido tratar a situação como se existisse espaço para apenas uma coisa.

Encerra Destiny 2.

Empurra todo mundo para o futuro.

Investe no novo.

Só que comunidade não funciona assim.

Jogador de Destiny não olha para Marathon e pensa automaticamente:

“Ah, é Bungie. Então vou jogar.”

São propostas diferentes.

Públicos diferentes.

Relações construídas durante anos.

Destiny 2 tem quase uma década de conteúdo, personagens, raids, armas e memórias.

Tentar encerrar isso enquanto Marathon ainda buscava seu público parecia uma aposta enorme.

Agora o estúdio aparentemente percebeu que talvez exista outro caminho:

manter Destiny vivo e deixar Marathon descobrir quem ele é.

Muito mais sensato.

Só tem um problema: Bungie precisa entregar

O discurso atual é bom.

É humilde.

Reconhece erros.

Promete restaurar conteúdo.

Promete ampliar Marathon.

Promete ouvir jogadores.

Tudo ótimo.

Só que a Bungie chegou num ponto em que comunicado bonito vale aproximadamente três Glimmer e uma arma azul.

Precisa entregar.

Se Destiny 2 realmente recuperar campanhas antigas, raids e destinos perdidos, ótimo.

Se Marathon ganhar PvE robusto, modos competitivos bons e uma estrutura mais ampla, melhor ainda.

A Bungie continua sendo um dos estúdios que melhor entende sensação de tiro em primeira pessoa.

Poucos jogos fazem simplesmente apertar o gatilho parecer tão bom quanto Destiny.

O problema nunca foi saber fazer arma gostosa de usar.

Foi todo o resto em volta.

Agora a empresa parece ter entendido isso.

Ou pelo menos escreveu que entendeu.

Vamos descobrir a diferença.

Porque depois de passar meses dizendo que Destiny 2 estava chegando ao fim, a Bungie apareceu novamente e basicamente falou:

“Então… sobre aquilo…”

E, surpreendentemente, dessa vez talvez seja uma boa notícia.