A corrida pela dominância no mercado de Inteligência Artificial (IA) continua, e enquanto Estados Unidos e China batem cabeça, o Reino Unido e a União Europeia (UE) se movem para depender menos de outras nações e alcançar autossuficiência e, lá na frente, concorrerem em termos iguais.

O recém-divulgado Pacote de Soberania Tecnológica do bloco europeu, por exemplo, é uma atualização de planos recentes como o de autossuficiência em semicondutores, mas abarcando também IA e data centers, visando triplicar a capacidade deste último até 2033, mas como não podia deixar de ser, empresas de tecnologia terão que ser sustentáveis e transparentes sobre seu consumo de água e energia, para não impactar a população e nem o Meio Ambiente.

Gerente sênior de Operações da Apple caminha entre servidores de datacenter no Arizona, EUA, em foto de 2018 (Crédito: Tom Tingle/The Republic)

UE quer independência de data centers dos EUA, mas empresas locais não serão permitidas consumir água e energia de qualquer jeito (Crédito: Tom Tingle/The Republic)

UE: mais data centers, mas com regras

Vamos ser francos aqui: há uma onda de histeria ao redor da IA generativa de ambos os lados, pró e contra. Os cavaleiros aliados da tecnologia a ilustram como a segunda vinda do Messias, como ela vai tornar a vida de todo mundo melhor, nos levar a uma sociedade pós-escassez e livre de dinheiro, e coisas assim.

Elon Musk é um dos principais advogados dessa linha de pensamento, mas como dito antes, só quem nunca teve que pegar um ônibus cheio às 5 da manhã para ir ao trabalho na vida diria que "dinheiro não é problema", e fica ainda mais hilário quando tal afirmação vem do homem mais rico do mundo, cujo patrimônio chegou a ultrapassar US$ 1 trilhão, após um intenso lobby do próprio.

Mas "dinheiro não é importante".

O outro lado é tão diametralmente oposto que seja a ser engraçado: para os anti-algoritmos eles são o Anticristo em pessoa, que vai acabar com todos os empregos, queimar as florestas, drenar toda a água, encarecer todos os produtos e serviços para todos, que serão forçados aos piores empregos possível (todo o resto a IA fará) enquanto enriquecem aqueles no topo de pirâmide, em um cenário extremo de capitalismo tardio que culminará com o Apocalipse e o fim da vida na Terra, por uma revolta das máquinas ou algo similar.

Agora vamos à Realidade: a IA é uma ferramenta como qualquer outra, e tão boa ou má quanto quem a programar. É fato que o frisson em busca do dinheiro rápido e fácil deslumbrou muita gente e há uma precarização geral de empregos, mas companhias que acreditaram cegamente que soluções generativas substituiriam humanos em todas as situações tiveram muitas dores de cabeça, e foram obrigadas a recontratar pessoal.

Do outro lado, o maior investimento em servidores e data centers tem sim um impacto energético relevante, ao ponto da Microsoft investir na reativação parcial da usina nuclear de Three Mile Island, para atender suas necessidades; o estrangulamento o grid já vem se refletindo em contas de luz mais caras para todo mundo, mas ao mesmo tempo, o estresse hídrico não é tão grande quanto os doomers pintam.

Ainda assim há um impacto e perseguir maior desenvolvimento em IA trará custos, e a UE sabe disso. O que ela também sabe, é imprescindível alcançar um estado de soberania e autossuficiência tecnológica o mais rápido possível para não mais depender dos EUA, China ou qualquer outra grande nação melhor desenvolvida no setor, para quem sabe, passar a concorrer com elas no futuro.

Imagem criada com IA: robô sentado em uma cadeira no meio de um deserto, bebendo água de uma garrafa PET e desperdiçando a maior parte (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

É assim que os doomers imaginam o mundo para daqui a alguns anos (dois, no máximo), porque aparentemente o ciclo da água não existe mais (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

O que nos traz ao Pacote de Soberania Tecnológica da UE, apresentado em junho de 2026, que envolve três propostas. A primeira é uma atualização da Lei de Semicondutores de 2023, para estimular o desenvolvimento de chips no bloco, mas agora também inclusas soluções generativas ao lado de componentes para uso geral.

A segunda é uma Lei de Desenvolvimento para Nuvem e IA, mirando em data centers: a UE pretende triplicar as bases europeias entre 2031 e 2033, com destaque para soluções de código aberto para democratizar o acesso dentro dos 27 países-membros. A última proposta é o Plano Estratégico para Digitalização e IA no Setor Energético, e é esta que conversa diretamente com as novas propostas apresentadas:

No modelo original, companhias de IA europeias terão que garantir que o consumo de água e energia de seus data centers é sustentável e não estresse o grid, mas as ideias recém apresentadas e em discussão estabelecem que empresas com capacidade acima de 500 kW terão que ser transparentes.

Vai funcionar assim: as companhias não serão obrigadas a detalharem o consumo, mas terão que apresentar relatórios sobre o estresse gerado na distribuição local de água e energia, e se seus servidores afetam ou não as comunidades locais; eles também terão que informar suas ações para mitigar danos, por exemplo, se e como utilizam o calor gerado por suas operações; por exemplo, ele pode ser direcionado a sistemas de purificação de água.

A ideia é estabelecer um sistema de eficiência energética de data centers similar ao de carros e eletrodomésticos e com duas escalas, uma para água e outra para energia. O primeiro usará a escala WUE ("Eficácia no Uso de Água" na sigla em inglês), que mede a entrada de água doce em comparação ao uso dos equipamentos, enquanto o segundo usará o PUE ("Eficácia no Uso de Energia"), que mede o consumo total da instalação.

Quanto mais verdinho, mais sustentável; o ideal é que instalações se mantenham entre os índices A e B em ambas categorias.

A etiqueta também trará informações sobre a fontes de energia usadas, a oferta de serviços de flexibilidade à rede elétrica, e se a companhia reutiliza ou não o calor gerado.

Proposta da UE para selo de eficiência energética de data centers (Crédito: Divulgação/European Commission)

Proposta da UE para selo de eficiência energética de data centers (Crédito: Divulgação/European Commission)

A Europa não é a única tomando essa direção: nesta segunda-feira (21), o governador da Califórnia Gavin Newsom sancionou sete leis que regulam data centers no estado norte-americano, basicamente nos mesmos termos da UE: empresas serão obrigadas a informar sobre o consumo de água e energia, serem claras sobre os impactos no grid, e estabelece regras estritas para a construção de novas unidades.

Enquanto isso, a UE abriu um período de consulta pública de dois meses para as novas regras, que deverão ser analisadas pela Comissão e Parlamento Europeus; empresas com capacidade energética inferior a 500 kW ficam isentas de participar, mas podem aderir ao programa de forma voluntária (na verdade, é preferível que o façam agora); empreendimentos projetados entram na mesma situação, mas serão obrigados a se adequarem tão logo entrem em operação

A primeira revisão do pacote, que deverá tratar de uma definição de metas e regras para fiscalização e auditoria das empresas, está prevista para ser realizada até o fim de 2028, mas é esperado que empresas dentro das regras propostas apresentem relatórios de consumo já em 2027.

Fonte: European Commission, Reuters