Já estava bem claro que a atual gestão da NASA, durante o 2.º mandato do presidente Donald Trump, havia se tornado mais avessa a colaborar com outras agências espaciais, mas agora o órgão se posicionou oficialmente sobre essa questão: segundo o administrador Jared Isaacman, apenas parcerias que tragam vantagens aos Estados Unidos serão aceitas.

O objetivo é bem simples: propostas de trabalhos conjuntos têm que agradar à Casa Branca, no sentido de que garantam a hegemonia americana no Espaço, especialmente na Lua, onde Trump quer fincar sua bandeira antes que a China faça o mesmo.

Detalhe de logo da NASA no Edifício para Construção de Veículos (VAB) nas instalações do Centro Espacial Kennedy na Flórida, EUA (Crédito: NASA)

NASA não vai fechar parcerias com agências que não oferecerem condições de vantagem aos EUA (Crédito: NASA)

NASA cansou de ser babá

Quando Isaacman apresentou o pacotão de mudanças impostas à NASA de cima para baixo, entre elas o cancelamento da base lunar Gateway em prol de uma improvável base lunar permanente, ele não estava de bom humor. O administrador explicou que "bilhões de dólares gastos" com "um hardware que nunca foi lançado para fora da órbita terrestre" tiveram efeitos pouco desejáveis, como deixar de inspirar novas gerações ("menos crianças se fantasiando como astronautas no Halloween"), o que não agradava nem ele, nem Trump.

Desde que foi reinstaurado no cargo após ser chutado pela primeira vez, segundo fontes, por "falta de lealdade" ao presidente (leia-se, ele não era MAGA o bastante), Isaacman vem se comportando exatamente como se espera de um indicado político, tendo inclusive defendido o corte violento no orçamento que Trump vai, de novo, tentar impor à NASA, com os alvos preferenciais novamente sendo Ciências Terrestres e programas de incentivo a novas carreiras, e tudo o que remotamente seja entendido como DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão).

O que não será afetado é o desenvolvimento em ciência aeroespacial, especialmente tudo o que envolva missões na Lua e em Marte. Trump e Isaacman querem astronautas no satélite até 2028 e para isso, o programa Artemis foi apressado; o administrador diz que a NASA não se pode dar ao luxo de primar pela segurança e burocracia, usando o mais óbvio espantalho: "se não corrermos, a China chegará primeiro e não podemos permitir isso".

O estabelecimento da Academia Espacial, para reforçar as fileiras especialmente da Força Espacial, já deixa clara qual a intenção de Trump: a hegemonia americana fora da Terra será garantida com boots on the ground, militares combatentes. Como forma de garantir o suporte a esse plano, a agência espacial norte-americana terá que ser seletiva em projetos daqui por diante, o que inclui parcerias internacionais.

Recentemente, durante um evento próximo de Washington D.C. que reuniu líderes militares e companhias de defesa dos EUA, Jared Isaacman disse que "a corrida espacial do século é mais do que uma disputa de ideologias", e que há interesses tangíveis a serem conquistados. Ele apontou para a Lua, mais especificamente o polo sul, como uma área de interesse do presidente Trump, e foi bem claro: eles precisam chegar lá e rápido, antes que a China o faça.

Há um motivo para isso: a região possui um enorme depósito de gelo "eterno", acumulado em crateras que nunca são banhadas pela luz do Sol. Esse gelo pode ser minerado para uso como água potável e, mais importante, em combustível de foguetes para reabastecimento, algo essencial no plano de uma base permanente.

Jared Isaacman, 15.º administrador da NASA, discursa durante evento Ignite em março de 2026 (Crédito: Bill Ingalis/NASA)

Segundo Jared Isaacman, os EUA e a NASA só aceitarão "boas propostas" de parcerias com agências externas daqui por diante, mas não explicou o que isso significa (Crédito: Bill Ingalis/NASA)

Isaacman diz que a área polar da Lua é bem similar a Washington, "com várias estradas e estacionamentos", uma indireta a outros pontos em potencial a serem ocupados, como crateras no lado iluminado que podem servir como spots para fornecimento de energia. O administrador vê o satélite como uma espécie de "ensaio" de tecnologias e habilidades para serem implementadas em Marte, e nesse sentido, a NASA não pode mais se dar ao luxo de aprovar qualquer parceria:

O que eu vou dizer veio diretamente do presidente dos Estados Unidos: nós só faremos bons acordos (de parceria), e nem sempre fizemos isso (...).

Houve uma época em que nós (a NASA) tentávamos deixar todo mundo feliz. Nós reuníamos um monte de bandeiras para um grande anúncio, e às vezes isso comprometia a missão ao invés de estimulá-la.

Não podemos mais fazer isso, nós mudamos isso e, como resultado, temos fechado bons negócios.

Sabe o Tratado Espacial? Então...

Isaacman não deu muitos detalhes sobre o que seria um "bom acordo" para agradar primeiro Trump e depois a NASA, mas deu algumas dicas sobre o que isso significa. Uma das propostas aprovadas, por exemplo, envolve US$ 5 bilhões para a construção de alojamentos permanentes em solo lunar em parceria com o governo italiano, o que será "recompensado" com duas vagas de astronautas locais.

O Japão também fechou um bom negócio, com uma proposta multibilionária para o desenvolvimento de um rover pressurizado, também em troca de vagas para astronautas na Lua. O que a NASA não quer? Definitivamente, projetos com datas de entrega a perder de vista:

Nós tínhamos um parceiro que disse: 'Olha, eu vou te dar um lander robô que chegará à cratera Shackleton em meados dos anos 2030'. Eu disse, 'Os chineses vão lançar uma sonda daqui a dois meses (na verdade, a missão da Chang'e 7 foi adiada para 2027), no que isso é vantajoso para nós (os EUA)?

Quando vocês lançarem, não vai ter mais nenhuma área de pouso disponível!'"

O diretor da NASA não deu nome aos bois, mas todo mundo entendeu que ele se referia à sonda Argonaut da ESA.

As falas de Isaacman, perfeitamente alinhadas com o discurso de Trump que defende a supremacia espacial norte-americana, deixam clara a intenção dos EUA de garantir para si as reservas de gelo do polo sul lunar e áreas adjacentes, de modo que ninguém mais possa fazê-lo antes deles, especialmente a China. Assim, tanto um quanto o outro lado não estão dando a mínima para o Tratado do Espaço Exterior de 1967, que impede nações (e empresas, por extensão) de clamarem posse do satélite ou de porções dele.

Mesmo a NASA declarou no passado que "isso seria um problema para quando chegássemos lá", sobre a possibilidade de companhias como a SpaceX passarem na frente. Com governos a conversa é outra, e sabia-se muito bem que, quando tivéssemos a tecnologia necessária, a lei que entraria em vigor era a do "quem chegar primeiro, leva".

Vale notar que EUA, China e outras nações ricas não assinaram o Tratado Lunar complementar de 1979, que proíbe toda e qualquer atividade militar no satélite; de fato, este não é mais do que um pedaço de papel endossado por países sem tecnologia aeroespacial, sendo a Índia a única exceção.

Nem o Brasil assinou o documento, para dar uma ideia.

Imagem da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter do polo sul lunar; região está no centro da imagem, e localizada à borda da cratera Shackleton (Crédito: NASA)

Região do polo sul da Lua possui uma grande reserva de gelo, que todo mundo está de olho; Trump quer que os EUA cheguem lá primeiro e assumam o controle (Crédito: NASA)

O que vai acontecer é: se não forem os EUA a tomarem posse de uma parte da Lua, será a China, a Rússia (quando resolverem seus problemas mais imediatos) ou qualquer outra nação, com todos os capazes de realizar a empreitada mirando nos pontos mais interessantes, as reservas de gelo e áreas com depósitos de Hélio-3 em potencial, já catalogadas pelos chineses.

E ninguém vai dar a mínima para tratados.

Fonte: Ars Technica